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O que é o Índice de Sharpe e por que ele mente sobre o Bitcoin

A régua mais usada de retorno ajustado ao risco assume que os retornos são normais e simétricos. O cripto não tem nenhuma das duas propriedades, e por isso o número vem confiante e errado.

Fugazzi Research 12 min

O índice de Sharpe é a régua mais usada do mercado para dizer se um retorno valeu o risco. Quase todo relatório de fundo o cita, quase toda comparação de carteira passa por ele. O problema é que ele responde a uma pergunta mais estreita do que parece, e quando aplicado a um ativo como o Bitcoin ele não erra um pouco. Ele mente com confiança.

O Sharpe não é uma medida de risco. É uma medida de retorno por unidade de volatilidade, sob a hipótese de que os retornos se distribuem de forma normal e simétrica. Essa frase parece um detalhe técnico. É a coisa inteira. Quando essas duas hipóteses valem, o Sharpe é uma das ferramentas mais elegantes das finanças. Quando elas falham, ele continua devolvendo um número bonito sobre uma realidade que não existe.

O que o índice de Sharpe realmente calcula

A construção é simples. Pegue o retorno do ativo, subtraia o retorno do ativo livre de risco e divida o resultado pela volatilidade dos retornos, medida pelo desvio-padrão. O numerador é o prêmio que você ganhou por sair da segurança. O denominador é o tamanho do tremor que você teve de aguentar. Um Sharpe de 1 diz que cada unidade de tremor foi paga com uma unidade de prêmio. Quanto maior o número, mais eficiente parece o retorno.

No Brasil, o ativo livre de risco usado como referência costuma ser o CDI, que aproxima a taxa básica de juros. Por isso o retorno excedente de uma carteira local é o que sobra acima do CDI, tema que detalhamos em o que é o CDI. A escolha do livre de risco importa, mas não é onde mora o problema. O problema mora no denominador.

Sharpe = (retorno do ativo menos retorno livre de risco) dividido pela volatilidade. O numerador é o prêmio. O denominador é o desvio-padrão dos retornos. Tudo depende de o desvio-padrão ser uma boa descrição do risco, e ele só é quando a distribuição é normal e simétrica.

As duas premissas que ninguém menciona

O desvio-padrão trata uma alta de 30% e uma queda de 30% como exatamente a mesma coisa. Para a matemática do Sharpe, oscilar para cima é tão penalizado quanto oscilar para baixo. Isso é a premissa da simetria. Ela supõe que o risco de você ganhar muito é equivalente ao risco de você perder muito, o que não corresponde a como ninguém investe de verdade.

A segunda premissa é a normalidade. O Sharpe assume que os retornos seguem a curva em sino, em que eventos extremos são raríssimos e as observações se concentram perto da média. Sob a normal, uma queda de muitos desvios-padrão deveria acontecer uma vez a cada milênios. Os mercados, e o cripto em particular, têm caudas gordas. O improvável acontece com frequência incômoda, e é justamente ele que quebra carteiras.

O desvio-padrão pune a alta com a mesma severidade da queda. Para a régua, ganhar demais é tão arriscado quanto perder tudo.

Um exemplo numérico que expõe a falha

Considere duas carteiras com o mesmo retorno excedente médio de 5% acima do CDI no período. A carteira A oscila de forma suave, com volatilidade de 10%. A carteira B teve poucas quedas pequenas e algumas altas explosivas, e por causa dessas altas a sua volatilidade ficou em 20%. O Sharpe da A é 0,5. O da B é 0,25. A régua decreta que a carteira A foi duas vezes melhor.

Olhe o que de fato aconteceu. A carteira B só foi punida porque subiu em saltos. A volatilidade que o Sharpe contou contra ela era volatilidade de alta, o tipo de oscilação que nenhum investidor lamenta. A régua confundiu o ativo que sobe em arrancos com um ativo mais perigoso, quando para quem segura ele foi a experiência mais lucrativa. O número não mediu risco. Mediu desvio do comportamento manso que a fórmula espera.

0,50
Sharpe da carteira que oscila pouco
0,25
Sharpe da que subiu em saltos
Mesmo 5%
Retorno excedente das duas no período
Duas carteiras, mesmo retorno excedente (% a.a.)
Figura. As duas têm 5% de retorno excedente, mas a volatilidade de B é o dobro. O Sharpe cai de 0,50 (carteira A) para 0,25 (carteira B), penalizando a oscilação, não a perda.

Por que isso importa no cripto

O Bitcoin é o caso extremo das duas violações. Boa parte da sua volatilidade histórica vem de altas verticais, não de quedas, o que infla o denominador do Sharpe com movimentos que o investidor desejaria ter mais, não menos. E as caudas do Bitcoin são gordíssimas, com drawdowns que já passaram de 80% do topo ao fundo, eventos que a curva normal classifica como praticamente impossíveis. Aplicar o Sharpe puro a esse ativo é usar uma régua de pano para medir uma montanha.

Existe uma correção parcial para a assimetria, o índice de Sortino, que penaliza apenas a volatilidade das quedas e ignora a das altas. Ele resolve o problema da simetria, mas não o das caudas gordas. Tratamos da diferença entre os dois em Sortino versus Sharpe. A lição que fica é mais geral. Antes de confiar em um número de risco, pergunte que premissas ele carrega e se o seu ativo as respeita.


A raiz do erro está antes da fórmula

O Sharpe herda uma confusão que vem de antes dele. Ele trata volatilidade como sinônimo de risco, e essas duas coisas não são a mesma. Volatilidade é a turbulência do caminho. Risco é a chance de perda permanente de capital. Um ativo pode ser violentamente volátil e ainda assim entregar o destino. Outro pode parecer calmo e esconder uma ruína. Por que essa distinção decide tudo é o tema de o que é volatilidade.

Nada disso significa jogar o Sharpe fora. Ele é útil para comparar ativos parecidos, de comportamento manso e distribuição próxima da normal, como dois fundos de renda fixa. O erro não é usar a régua. O erro é esquecer para que tipo de objeto ela foi feita. Quando o objeto é cripto, o número precisa de contexto, de Sortino, de análise de drawdown e de cabeça fria. Sozinho, ele engana.

Perguntas frequentes sobre o índice de Sharpe

O índice de Sharpe mede risco?

Não diretamente. Ele mede retorno excedente por unidade de volatilidade, e volatilidade não é a mesma coisa que risco de perda. O Sharpe só vira uma boa medida de risco quando a distribuição dos retornos é normal e simétrica, condição que ativos como o Bitcoin não cumprem.

Qual é um bom índice de Sharpe?

A leitura comum é que acima de 1 é bom e acima de 2 é excelente, mas o número só faz sentido entre ativos comparáveis e de comportamento parecido. Comparar o Sharpe de um fundo de renda fixa com o de uma carteira de cripto é comparar coisas que a fórmula trata de forma incompatível.

Por que o Sharpe não funciona bem para o Bitcoin?

Porque o Bitcoin viola as duas premissas do índice. Boa parte da sua volatilidade vem de altas, que o Sharpe pune como se fossem risco, e os seus retornos têm caudas gordas, com quedas extremas que a curva normal considera quase impossíveis. O resultado é um número que distorce a realidade do ativo.

Fugazzi Research

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Sobre o autor

Eduardo BiasiCNPI 10189

Analista de Valores Mobiliários credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021, responsável técnico pela análise da Fugazzi Research.

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