GuiaRISCO E PORTFÓLIOMARKOWITZDIVERSIFICAÇÃO

Como otimizar uma carteira com Markowitz na prática

Não é rodar um botão mágico que devolve a carteira perfeita. É um procedimento de quatro passos com uma armadilha embutida em cada um, da matriz de covariância à fronteira eficiente.

Fugazzi Research 15 min

Otimizar uma carteira com Markowitz não é rodar um botão mágico que devolve a carteira perfeita. É um procedimento de quatro passos com uma armadilha embutida em cada um. Este guia mostra o método prático, do cálculo da matriz de covariância à fronteira eficiente, e deixa claro onde a teoria de 1952 ajuda e onde ela engana.

Antes do passo a passo, vale ter o conceito firme. Se a ideia de fronteira ainda é vaga, comece por o que é a fronteira eficiente de Markowitz. Aqui partimos do princípio de que a fronteira é o conjunto de carteiras que entregam o maior retorno esperado para cada nível de risco.

Os três insumos que o método exige

Toda otimização de Markowitz parte de três coisas. O retorno esperado de cada ativo, o risco de cada ativo medido pela volatilidade e a forma como os ativos se movem em conjunto, capturada pela covariância. O terceiro insumo é o que faz a diferença, porque é dele que nasce o benefício da diversificação.

Retorno esperado diz quanto cada ativo tende a render. Volatilidade diz quanto cada um oscila. A covariância diz se eles caem juntos ou se um amortece o outro. Sem o terceiro, não há otimização, só uma lista de apostas isoladas.

A covariância é a versão não normalizada da correlação. Onde a correlação varia entre menos um e mais um, a covariância carrega também a magnitude das oscilações. Markowitz trabalha com a matriz de covariância porque ela combina, num só objeto, o risco individual e a interação entre os ativos.

Como montar a matriz de covariância

Para uma carteira de N ativos, a matriz de covariância é uma tabela N por N. Na diagonal ficam as variâncias de cada ativo, que é o desvio-padrão ao quadrado. Fora da diagonal ficam as covariâncias entre cada par. A matriz é simétrica, porque a covariância entre A e B é a mesma entre B e A.

  1. Monte uma tabela de retornos periódicos, uma coluna por ativo e uma linha por período, na mesma frequência para todos.
  2. No Excel, use COVARIAÇÃO.A entre cada par de colunas para preencher a matriz, ou a ferramenta de análise de dados para gerar tudo de uma vez.
  3. Em Python, a operação é uma linha só. Um quadro de retornos chama o método de covariância e devolve a matriz inteira, já anualizada se você multiplicar pela frequência.
  4. Confira a diagonal. Cada valor ali deve bater com a variância individual de cada ativo, um teste rápido de sanidade da matriz.

A matriz de covariância é o motor do risco da carteira. O risco total não é a média dos riscos individuais. É uma combinação que leva em conta os pesos de cada ativo e como eles se movem juntos, e é exatamente por isso que diversificar reduz risco sem precisar abrir mão de retorno na mesma proporção.

Como traçar a fronteira na prática

Com retornos esperados e matriz de covariância, a fronteira sai de um problema de otimização. Você fixa um nível de retorno alvo e pede ao otimizador os pesos que minimizam a volatilidade para aquele retorno. Repete para vários alvos e obtém a curva. Cada ponto da curva é uma carteira eficiente.

No Excel com o Solver

Monte células com os pesos de cada ativo, uma célula com o retorno da carteira, igual à soma dos pesos vezes os retornos esperados, e uma célula com a volatilidade da carteira, que usa a matriz de covariância. O Solver minimiza a volatilidade sujeito a duas restrições. A soma dos pesos igual a um e o retorno da carteira igual ao alvo. Rodar para vários alvos desenha a fronteira ponto a ponto.

Em Python, de forma conceitual

A lógica é a mesma, com mais escala. Você define a função de volatilidade da carteira a partir dos pesos e da matriz de covariância, e usa um otimizador para minimizá-la sob as mesmas restrições. Bibliotecas de otimização resolvem dezenas de alvos em segundos, e o resultado é a fronteira completa, da carteira de mínima variância até a de maior retorno viável.

N × N
Tamanho da matriz de covariância
Σ pesos = 1
Restrição central do otimizador
mín. risco
Objetivo a cada retorno alvo

A fronteira não te diz qual carteira escolher. Te diz quais carteiras são burras de descartar, porque existe outra com mais retorno para o mesmo risco.


Os limites que ninguém imprime no gráfico

A fronteira sai bonita e suave, e é aí que mora o perigo. O método é extremamente sensível aos insumos. Pequenas mudanças no retorno esperado de um ativo produzem carteiras ótimas radicalmente diferentes, em geral concentradas em poucos ativos. O otimizador confia cegamente nos seus números, e os seus números sobre retorno futuro são, na melhor das hipóteses, palpites.

  • Sensibilidade aos inputs. Erros pequenos no retorno esperado viram carteiras ótimas muito diferentes.
  • Retorno esperado é estimado, não conhecido. O passado não garante o futuro, e a otimização trata estimativa como verdade.
  • Premissa de distribuição comportada. A matriz de covariância assume relações estáveis e caudas finas, que ativos de cripto e crises violam.
  • Correlação que muda na hora errada. A covariância histórica calma some quando a correlação salta na crise.
  • Concentração não intencional. Sem limites de peso, o otimizador empilha tudo no ativo de maior retorno estimado.
Markowitz não erra a matemática. Ele acerta a matemática de insumos que você não conhece com precisão. A otimização amplifica os erros de estimativa em vez de corrigi-los, e por isso a carteira ótima no papel costuma ser frágil na prática.

Como usar o método sem ser usado por ele

O profissional sério não joga fora Markowitz nem confia nele de olhos fechados. Usa a fronteira como bússola, não como GPS. Impõe limites de peso máximo por ativo para evitar concentração, encara os retornos esperados como cenários e não como certezas, e testa quanto a carteira muda quando os insumos variam. Se uma carteira ótima se desmancha com uma pequena mudança de premissa, ela não era ótima, era sorte de planilha.

Vale ainda lembrar que a covariância histórica engana justamente quando você mais precisa dela. Em tempos calmos os ativos parecem descorrelacionados. Na crise, a correlação salta para perto de um e a diversificação que a fronteira prometeu evapora. É a mesma armadilha que detalhamos em o que é correlação e por que ela some quando você precisa.

A fronteira eficiente é uma ideia poderosa e uma ferramenta perigosa. O valor está na intuição que ela ensina, não na carteira exata que ela cospe.

Perguntas frequentes

O que é preciso para otimizar uma carteira com Markowitz?

Três insumos. O retorno esperado de cada ativo, a volatilidade de cada ativo e a matriz de covariância, que captura como os ativos se movem em conjunto. Com isso, um otimizador encontra, para cada nível de retorno alvo, os pesos que minimizam a volatilidade da carteira, traçando a fronteira eficiente.

Em ferramentas, o Solver do Excel resolve carteiras pequenas e bibliotecas de otimização em Python resolvem carteiras maiores com a mesma lógica de minimizar risco sob a restrição de soma dos pesos igual a um.

Por que a carteira ótima de Markowitz costuma falhar na prática?

Porque o método é muito sensível aos insumos e o retorno esperado é uma estimativa, não um dado. Erros pequenos nas premissas geram carteiras ótimas muito diferentes, em geral concentradas. Além disso, a covariância histórica assume relações estáveis que a crise rompe, quando a correlação salta e a diversificação some.

Markowitz ainda vale a pena hoje?

Vale como intuição organizadora, não como receita automática. A ideia de buscar o maior retorno para cada nível de risco continua correta e útil. O erro é tratar a carteira numérica como verdade. Usada com limites de peso e teste de sensibilidade, a fronteira ajuda. Usada cega, ela amplifica os seus erros de estimativa.

Fugazzi Research

Do conceito ao método aplicado.

Este conteúdo é gratuito. Nas recomendações da casa, o método é aplicado com dados, simulações e acompanhamento de cada call até o encerramento. Assinatura por R$ 249,90/mês, cancele a qualquer momento.

Conhecer o Research

Continue no cluster

Sobre o autor

Eduardo BiasiCNPI 10189

Analista de Valores Mobiliários credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021, responsável técnico pela análise da Fugazzi Research.

Validar credenciamento na APIMEC

Autoria e conformidade

Conteúdo educacional produzido de forma independente pela Fugazzi Research, casa de análise credenciada como pessoa jurídica pela APIMEC Brasil, sob responsabilidade técnica do analista Eduardo Biasi, CNPI 10189 (Certificação Nacional do Profissional de Investimento), credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021. Regulatório e Compliance.

Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui oferta, solicitação ou recomendação de compra ou venda de valores mobiliários ou de qualquer ativo. Investimentos envolvem riscos. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros. Criptoativos, derivativos e operações alavancadas envolvem risco elevado, incluindo a possibilidade de perda total ou superior ao capital investido. A decisão de investimento é de responsabilidade do investidor e deve observar seu perfil.