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Contabilidade a fair value do Bitcoin

A contabilidade a fair value do Bitcoin registra a moeda pela cotação de mercado e faz a variação de preço passar direto pelo lucro líquido da empresa.

Fugazzi Research

Contabilidade a fair value do Bitcoin é o regime em que a empresa registra o Bitcoin do seu balanço pelo valor justo, ou seja, pela cotação de mercado na data do balanço, e não mais pelo custo de aquisição. A expressão fair value é o termo em inglês para valor justo. Nesse regime, toda oscilação de preço do Bitcoin de um trimestre para o outro é reconhecida no resultado, aumentando ou reduzindo o lucro líquido da empresa mesmo que nenhuma moeda tenha sido comprada ou vendida no período.

Até pouco tempo valia o regime oposto sob o padrão contábil dos Estados Unidos. O Bitcoin era tratado como ativo intangível sujeito à redução ao valor recuperável, o mecanismo conhecido em inglês como impairment. Nesse modelo antigo a empresa só podia reconhecer quedas. Se a cotação despencava, ela registrava a perda. Se depois se recuperava, não podia reverter o valor no balanço, que ficava congelado na mínima já registrada. O resultado era assimétrico. O mesmo Bitcoin que obrigava a lançar prejuízo na baixa não permitia lançar ganho na alta.

A virada veio com uma atualização de norma contábil (ASU, na sigla em inglês) editada pelo FASB, o órgão que define as regras de contabilidade dos Estados Unidos, identificada como ASU 2023-08. A norma passou a exigir a mensuração de criptoativos como o Bitcoin a valor justo, com as variações transitando diretamente pelo resultado, para exercícios iniciados a partir de 2025 e com adoção antecipada permitida. Na prática a lógica se inverteu. O mesmo Bitcoin que antes só gerava prejuízo obrigatório na queda passou a gerar lucro obrigatório na alta, e nenhum satoshi precisou se mover para isso acontecer.

Um exemplo deixa o efeito claro. Suponha uma empresa que detém 200 mil bitcoins. No trimestre, a cotação sobe de 300 mil para 350 mil reais por moeda. A variação de 50 mil reais multiplicada por 200 mil bitcoins gera um ganho não realizado de 10 bilhões de reais, que entra no resultado como lucro do período. Se no trimestre seguinte a cotação recuar os mesmos 50 mil reais, a empresa lança 10 bilhões de reais de prejuízo. É o preço do Bitcoin, e não a operação da empresa, ditando o lucro contábil.

O erro comum é ler a manchete de que a empresa lucrou bilhões como se fosse lucro operacional ou geração de caixa. Não é. É reavaliação contábil de um estoque de Bitcoin que continua parado no balanço. Por consequência, o índice preço sobre lucro, o P/L, perde sentido para uma empresa-tesouraria, porque o lucro do denominador vira apenas a volatilidade do Bitcoin no trimestre. Pelo mesmo motivo, a projeção de resultados, o guidance, e a comparação entre lucro por ação e a expectativa do mercado viram ruído nesse tipo de empresa.

Para o investidor brasileiro há uma camada extra. A ASU 2023-08 é uma norma do padrão contábil americano e alcança as empresas que reportam sob ele, caso da MicroStrategy. As companhias abertas brasileiras seguem o IFRS, o padrão contábil internacional adotado no Brasil, no qual o tratamento de criptoativos costuma ser distinto e ganhos de reavaliação, quando cabíveis, tendem a não passar pelo lucro líquido da mesma forma. Comparar o lucro líquido de uma tesouraria americana com o de uma brasileira, portanto, é comparar coisas diferentes. O caminho mais limpo é olhar métricas que independem do regime contábil, como o Bitcoin por ação e o mNAV. No terminal da Fugazzi Research acompanhamos essas métricas para as principais empresas-tesouraria.

Exemplo

Uma empresa comprou Bitcoin a 60 mil reais por moeda, viu a cotação cair para 20 mil e depois subir para 100 mil. No regime antigo, o de impairment, o balanço ficava travado nos 20 mil da mínima, sem poder reconhecer a recuperação. No regime de valor justo, ela passa a marcar a 100 mil e reconhece todo o ganho no resultado, embora não tenha vendido uma única moeda.

Perguntas frequentes

A MicroStrategy realmente lucrou todo esse dinheiro que aparece no balanço?

Boa parte do lucro divulgado por empresas-tesouraria sob o padrão contábil americano é ganho não realizado. Vem da reavaliação do Bitcoin em estoque a valor justo, não de venda nem de geração de caixa operacional. Se o preço do Bitcoin cair no trimestre seguinte, o mesmo mecanismo transforma esse ganho em prejuízo contábil.

O que mudou na contabilidade do Bitcoin a partir de 2025?

A norma ASU 2023-08 do FASB passou a exigir que criptoativos como o Bitcoin sejam medidos a valor justo, com a variação de preço transitando pelo resultado, para exercícios iniciados a partir de 2025 e com adoção antecipada permitida. Antes vigorava o regime de redução ao valor recuperável, o impairment, que só reconhecia quedas.

Faz sentido usar o P/L para avaliar uma treasury company de Bitcoin?

Em geral não. O lucro de uma empresa-tesouraria passou a refletir sobretudo a variação do preço do Bitcoin no trimestre, o que torna o P/L instável e pouco informativo. Métricas específicas como o Bitcoin por ação e o mNAV descrevem melhor o valor gerado para o acionista.

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