Por que a Strategy (MSTR) vale mais que o Bitcoin que ela tem
A ação da Strategy negocia por mais do que vale o Bitcoin no balanço dela. Não é irracionalidade do mercado. É um prêmio com lógica própria, e entendê-lo é entender por que ele também pode evaporar.
Existe um fato que desconcerta quem olha a Strategy pela primeira vez. A empresa vale, na bolsa, mais do que o Bitcoin que ela tem no balanço. Não um pouco mais. Em vários momentos, muito mais. A reação intuitiva é gritar irracionalidade. A reação correta é entender que existe uma lógica por trás disso, e que entendê-la é também entender por que esse prêmio pode evaporar.
Antes de tudo, o enquadramento. Este texto é um caso de estudo, não uma recomendação. Não há aqui sugestão de comprar ou vender a ação da Strategy nem nenhuma promessa de retorno. O objetivo é dissecar um fenômeno de mercado, o prêmio sobre o NAV, usando a empresa mais conhecida do gênero como exemplo. A Strategy, antiga MicroStrategy, foi a pioneira do modelo de empresa-tesouraria de Bitcoin, e por isso é o melhor laboratório para a tese.
O fato que parece um erro
Imagine uma empresa cujo principal ativo é uma pilha de Bitcoin. Some o valor de mercado dessa pilha, subtraia a dívida, e você tem uma aproximação do valor líquido dos ativos, o NAV. O esperado seria a ação valer perto disso. No caso da Strategy, e de outras empresas do gênero, a ação negocia com frequência bem acima. O mercado paga, via ação, mais do que o Bitcoin que a empresa carrega vale. Esse afastamento é o prêmio sobre o NAV, e ele é o coração da tese. O conceito está formalizado em o que é mNAV.
A pergunta que o cético faz é justa. Por que alguém pagaria 1,50 por algo que vale 1,00, quando poderia comprar o próprio Bitcoin diretamente? A resposta não é uma só. São camadas que se somam, e cada uma sozinha não bastaria, mas juntas explicam um prêmio persistente.
As razões do prêmio
Acesso embrulhado em ação
Muito capital no mundo não pode ou não quer tocar em Bitcoin diretamente. Fundos com mandato restrito a ações, investidores que não dominam a autocustódia, contas em corretoras que não negociam cripto. Para todos eles, a ação de uma empresa-tesouraria é a única porta de entrada para a exposição ao Bitcoin dentro do invólucro que já usam. Essa conveniência tem valor, e o mercado paga por ela.
A expectativa de mais Bitcoin por ação
Esta é a camada mais importante e a mais sutil. O prêmio se autoalimenta. Enquanto a ação negocia acima do NAV, a empresa pode emitir ações novas a esse preço inflado e comprar Bitcoin ao preço de mercado, fazendo cada ação existente passar a representar mais Bitcoin do que antes. O acionista que pagou prêmio aposta que a empresa usará esse próprio prêmio para aumentar o Bitcoin por ação ao longo do tempo. O mecanismo está em o que é BTC Yield.
Alavancagem que o investidor não consegue replicar fácil
A empresa capta dívida barata, em especial via notas conversíveis, e usa o capital para controlar mais Bitcoin do que o seu patrimônio próprio compraria. Para o investidor comum, montar uma exposição alavancada a Bitcoin com custo e perfil semelhantes é difícil e arriscado. Comprar a ação é uma forma de terceirizar essa alavancagem para uma estrutura corporativa. Isso atrai parte da demanda que sustenta o prêmio.
“O prêmio da Strategy não é o mercado errando uma conta. É o mercado pagando por acesso, por alavancagem e pela promessa de mais Bitcoin por ação no futuro. A questão não é se a lógica existe. É se ela aguenta uma virada.”
O ciclo que se sustenta sozinho
Quando tudo funciona, forma-se um ciclo elegante. O prêmio permite emitir ações de forma vantajosa. A emissão compra Bitcoin e eleva o Bitcoin por ação. O Bitcoin por ação maior valida a expectativa do mercado e sustenta o prêmio. O prêmio sustentado permite emitir de novo. Cada volta da roda, em tese, deixa o acionista existente com mais Bitcoin lastreando a sua cota, apesar de existirem mais ações no total. É contraintuitivo, e é a engenharia que tornou o modelo famoso.
É por isso que o total de Bitcoin da Strategy cresce sem que o acionista necessariamente se dilua no sentido que importa. O número que conta não é a fatia percentual, é quanto Bitcoin cada ação representa. Esse é o ponto desenvolvido em o que é diluição e BTC per share.
O outro lado, e ele é grande
Nenhuma análise honesta para no ciclo virtuoso. O mesmo mecanismo que sustenta o prêmio pode girar ao contrário, e quando gira a queda é amplificada pelos mesmos fatores que amplificavam o ganho. Há dois riscos centrais, e o pior cenário é os dois acontecerem juntos.
- O prêmio evapora. Se o mercado deixa de pagar acima do NAV e a ação passa a negociar com desconto, a empresa perde a capacidade de emitir ações de forma vantajosa. Pior, emitir com desconto destrói valor para o acionista, invertendo a lógica que sustentava a tese.
- A alavancagem cobra. A dívida que financiou a compra de Bitcoin precisa ser paga ou refinanciada. Se o Bitcoin cai e um vencimento se aproxima ao mesmo tempo, a empresa pode ser forçada a vender Bitcoin no pior momento, ou a se diluir agressivamente para sobreviver.
Há ainda um ponto desconfortável que o entusiasta tende a ignorar. Parte da demanda que sustenta o prêmio é a própria narrativa de que o prêmio vai se sustentar. Narrativas se invertem rápido. Um prêmio que parece sólido em um mercado de alta pode comprimir com violência quando o humor vira, exatamente quando a empresa mais precisaria dele para honrar compromissos. Essa reflexividade é o risco que nenhuma planilha captura sozinha.
Como pensar sobre isso sem virar torcida
A leitura disciplinada não celebra nem condena. Ela reconhece que o prêmio tem lógica e que essa lógica é frágil. A pergunta certa não é se a Strategy vale mais que o seu Bitcoin hoje, porque o mercado já respondeu que sim. A pergunta é o que justifica esse prêmio, quanto dele é estrutura e quanto é euforia, e o que aconteceria com a empresa se ele caísse pela metade. Quem analisa uma empresa-tesouraria sem fazer essa pergunta de estresse está torcendo, não analisando. O método completo está no guia como analisar uma treasury company de Bitcoin.
“O prêmio é real e o risco é real. Confundir um pelo outro é o erro que custa caro, nas duas direções.”
Perguntas frequentes
Por que a Strategy vale mais que o Bitcoin que ela tem?
Por causa do prêmio sobre o NAV. O mercado paga acima do valor do Bitcoin detido pela conveniência do acesso via bolsa, pela alavancagem embutida e pela expectativa de que a empresa siga aumentando o Bitcoin por ação. Esse prêmio é medido pelo mNAV e é o que permite à empresa emitir ações de forma vantajosa. Ele pode encolher ou virar desconto.
Comprar MSTR é melhor do que comprar Bitcoin?
Não é uma questão de melhor, é uma questão de risco diferente, e este texto não recomenda nenhuma das duas. A ação carrega alavancagem e a volatilidade do prêmio, então sobe mais na alta e cai mais na queda. A posse direta do Bitcoin não tem prêmio nem dívida, mas exige autocustódia. São exposições parecidas no sentido, distintas no risco.
O prêmio sobre o NAV pode desaparecer?
Pode, e já comprimiu em vários momentos da história do setor. Quando o prêmio vira desconto, a empresa perde a capacidade de emitir ações de forma vantajosa, e a lógica que sustentava a tese se inverte. Por isso o cenário de prêmio comprimido junto de queda do Bitcoin é o risco central de qualquer empresa-tesouraria.
Fugazzi Research
Do conceito ao método aplicado.
Este conteúdo é gratuito. Nas recomendações da casa, o método é aplicado com dados, simulações e acompanhamento de cada call até o encerramento. Assinatura por R$ 249,90/mês, cancele a qualquer momento.
Ver o estudo aplicadoContinue no cluster
O que é mNAV
O que é uma treasury company
O que é BTC Yield
Como analisar uma treasury company de Bitcoin
Treasury company é modelo sustentável ou alavancagem disfarçada
Como declarar e tributar ações de treasury company (MSTR)
Treasury company, ETF de Bitcoin ou Bitcoin direto
MicroStrategy e o S&P 500, quando o índice compra Bitcoin sem olhar preço
Sabor Bitcoin: O Custo Oculto da Conveniência dos ETFs no Brasil
Sobre o autor
Eduardo BiasiCNPI 10189
Analista de Valores Mobiliários credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021, responsável técnico pela análise da Fugazzi Research.
Validar credenciamento na APIMECAutoria e conformidade
Conteúdo de opinião produzido de forma independente pela Fugazzi Research, casa de análise credenciada como pessoa jurídica pela APIMEC Brasil, sob responsabilidade técnica do analista Eduardo Biasi, CNPI 10189 (Certificação Nacional do Profissional de Investimento), credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021. Regulatório e Compliance.
Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui oferta, solicitação ou recomendação de compra ou venda de valores mobiliários ou de qualquer ativo. Investimentos envolvem riscos. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros. Criptoativos, derivativos e operações alavancadas envolvem risco elevado, incluindo a possibilidade de perda total ou superior ao capital investido. A decisão de investimento é de responsabilidade do investidor e deve observar seu perfil.
Declarações do analista (Resolução CVM nº 20/2021, art. 21). As recomendações refletem única e exclusivamente as opiniões pessoais do analista e foram elaboradas de forma independente, inclusive em relação à Fugazzi Research. A remuneração do analista é fixa e não está, direta ou indiretamente, relacionada à recomendação específica ou à precificação dos VM objeto da análise.
Divulgação de conflito de interesses (Resolução CVM nº 20/2021, art. 21, II)
O analista Eduardo Biasi, CNPI 10189, declara que não possui posição comprada, vendida nem exposição, direta ou indireta por derivativos, no ativo MSTR (Strategy), no momento da publicação deste conteúdo.
A Fugazzi Research declara que não possui posição comprada, vendida nem exposição, direta ou indireta por derivativos, no ativo MSTR (Strategy), no momento da publicação deste conteúdo.