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Como o CDI define o seu retorno real

Render mais que o CDI nominal não significa render de verdade. O retorno que importa é o que sobra depois do imposto e da inflação, e a conta certa usa fator de capitalização, não soma.

Fugazzi Research 13 min

Render mais que o CDI é uma promessa fácil de vender e difícil de cumprir de verdade. O número que importa não é o percentual do CDI estampado no produto. É o que sobra depois do imposto e da inflação, calculado com a matemática correta de juros compostos. Este guia mostra a conta inteira.

Antes de comparar qualquer investimento com o benchmark, é preciso entender o que o benchmark é. Se você ainda não tem clareza sobre como o índice se forma, comece pela página-pilar o que é o CDI e como ele é calculado de verdade. Aqui partimos do princípio de que o CDI é uma taxa pró-rata exponencial em base de 252 dias úteis.

O retorno se multiplica, não se soma

O erro mais comum ao projetar rentabilidade é somar percentuais. Quem rendeu 1% em um mês e 1% no mês seguinte não rendeu 2%. Rendeu 2,01%, porque o segundo mês incide sobre um capital já maior. A diferença parece desprezível em dois meses. Em anos, ela domina o resultado.

Cada porcentagem de retorno vira um fator de capitalização igual a 1 mais a porcentagem dividida por 100. O retorno acumulado de vários períodos é o produto desses fatores, menos um. Nunca a soma das porcentagens.

Veja o mecanismo. Um retorno de 1% em um período é o fator 1,01. Um retorno de 0,8% no período seguinte é o fator 1,008. O acumulado dos dois é 1,01 multiplicado por 1,008, igual a 1,01808. Isso equivale a 1,808% no conjunto, não a 1,8%. A cada período, os juros do período anterior passam a render também. É a definição de juros compostos.

Patrimônio não se soma em porcentagem. Ele se multiplica em fatores de capitalização.

Essa é exatamente a regra que aplicamos no nosso track record. O retorno total de uma carteira nunca é a soma simples dos retornos de cada posição ou de cada mês. É a composição dos fatores. Calcular de outra forma infla ou desinfla o resultado e quebra qualquer comparação honesta com o CDI.

× , não +
Retornos compõem por multiplicação
1 + pct/100
Fator de capitalização de cada período
252
Base de dias úteis do CDI no acumulado

Por que o percentual do CDI engana

Um produto anunciado a 115% do CDI parece automaticamente superior a outro a 100%. Em termos brutos, é. Mas bruto não é o que entra na sua conta. Dois descontos separam o percentual anunciado do retorno que você de fato leva. O imposto de renda e a inflação.

O imposto de renda regressivo

A maior parte da renda fixa privada e dos títulos públicos é tributada por uma tabela regressiva. Quanto mais tempo o dinheiro fica aplicado, menor a alíquota. Ela parte de 22,5% para resgates em até seis meses e cai por faixas até 15% para prazos acima de dois anos.

  • Até 180 dias. Alíquota de 22,5% sobre o rendimento.
  • De 181 a 360 dias. Alíquota de 20%.
  • De 361 a 720 dias. Alíquota de 17,5%.
  • Acima de 720 dias. Alíquota de 15%.

O imposto incide apenas sobre o rendimento, não sobre o principal. Ainda assim, ele muda a comparação. Um CDB a 115% do CDI resgatado em quatro meses paga 22,5% sobre os juros. O retorno líquido fica em torno de 89% do CDI bruto daquele produto. Já uma LCI ou LCA isenta de imposto a 95% do CDI entrega os 95% inteiros. Em prazos curtos, a isenção frequentemente vence o percentual mais alto.

Para comparar produtos com e sem imposto, traga tudo para a mesma base. Um produto tributado a 15% que rende 118% do CDI entrega cerca de 100% do CDI líquido. Esse é o número que se compara com uma LCI isenta.
Retorno de um CDB resgatado em 4 meses (% do CDI)
Figura. Um CDB que anuncia 115% do CDI, resgatado em quatro meses, paga 22,5% de imposto e entrega cerca de 89% do CDI líquido. O percentual da vitrine não é o que entra no bolso.

A inflação e o retorno real

O segundo desconto é silencioso. Render acima do CDI nominal não significa ganhar poder de compra. Se a inflação do período devora a maior parte do rendimento, o retorno real fica perto de zero. O retorno real é o que sobra depois de descontar a inflação, e também ele se calcula por fator, não por subtração simples.

A conta correta divide o fator de rentabilidade pelo fator de inflação. Se o investimento rendeu 11% no ano, o fator é 1,11. Se a inflação foi de 5%, o fator é 1,05. O retorno real é 1,11 dividido por 1,05, menos um, o que dá aproximadamente 5,71%. Não são os 6 pontos da subtração ingênua.

Bater o CDI nominal é fácil de anunciar. Bater a inflação depois do imposto é o que constrói patrimônio.


O passo a passo para comparar de verdade

  1. Calcule o CDI do período pela capitalização correta, dia útil por dia útil em base 252, como explicado na página-pilar.
  2. Aplique o percentual do CDI do produto sobre esse acumulado, obtendo o rendimento bruto.
  3. Desconte o imposto de renda pela faixa regressiva correspondente ao prazo, lembrando que ele incide só sobre o rendimento.
  4. Traga o resultado para retorno real dividindo o fator de rentabilidade líquida pelo fator de inflação do período.
  5. Só então compare. O vencedor é o maior retorno real líquido, não o maior percentual do CDI anunciado.

Quando faz sentido buscar mais que o CDI

Buscar prêmio acima do CDI quase sempre significa aceitar mais risco. Crédito privado paga acima do CDI porque existe risco de calote do emissor. Prazos longos pagam mais porque travam a liquidez. A pergunta não é se dá para render mais que o CDI. Dá. A pergunta é se o prêmio compensa o risco adicional depois de imposto e inflação.

Para o investidor de alta renda, a fronteira interessante raramente está em espremer mais alguns pontos percentuais do CDI na renda fixa conservadora. Está em decidir quanto do patrimônio fica no piso seguro do CDI e quanto migra para classes com retorno real estruturalmente maior. Essa é a discussão dos nossos estudos de alocação no Fugazzi Research.

O CDI é o custo de oportunidade do dinheiro parado no Brasil. Qualquer ativo de risco precisa, ao longo do tempo, entregar retorno real acima do CDI real para justificar o risco que carrega.

Perguntas frequentes

Dá para render mais que o CDI com segurança?

Dá, em termos brutos, mas quase sempre ao custo de mais risco de crédito ou menos liquidez. Com segurança real e isenção, produtos como LCI e LCA podem superar o CDI líquido mesmo pagando um percentual nominal abaixo de 100%, porque não há imposto.

Como calcular o retorno líquido de imposto?

Aplique a alíquota regressiva sobre o rendimento bruto conforme o prazo, de 22,5% até 180 dias a 15% acima de 720 dias. O imposto incide só sobre os juros, nunca sobre o principal investido.

Retorno real é o retorno menos a inflação?

Não exatamente. É o fator de rentabilidade dividido pelo fator de inflação, menos um. A subtração simples superestima o retorno real, e o erro cresce quanto maiores forem as taxas envolvidas.

Fugazzi Research

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